Sistemas de cultivo integrado: você conhece os benefícios?

A produção de madeira em áreas de reflorestamento tem crescido no Brasil, principalmente na última década, e avançado para áreas do Cerrado (com destaque para o estado do Mato Grosso do Sul). Os produtos florestais ganharam destaque na economia e representaram 6,1% do PIB Industrial do país em 2019.

A expansão da atividade para estas regiões, em boa parte, permitiu a utilização de áreas produtivas que estavam degradadas – que atualmente representam 80% da área de pastos do Brasil (EMBRAPA, 2016).

A produção agroflorestal em áreas degradadas é uma das principais apostas para acelerar o processo de restauração destes locais, bem como alavancar as produtividades e a produção agropecuária e florestal brasileiras e, consequentemente, a participação nacional no mercado mundial.

Entre as técnicas que têm sido utilizadas para promover a recuperação e o aproveitamento de áreas degradadas, ganham destaque os sistemas integrados de cultivo, como o ILPF e o SAF.

Você conhece estes sistemas de produção?

Os sistemas integrados de cultivo são estratégias de produção que unem diferentes sistemas produtivos (agrícolas, pecuários e florestais) em uma mesma área.

A integração entre estes sistemas pode ocorrer a partir do consórcio, sucessão ou rotação de espécies, de forma em que todas as culturas implantadas ali sejam beneficiadas pela interação que ocorre entre elas.

O ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) é um sistema de produção que promove a otimização do uso da terra e a diversificação da produção, a fim de aumentar a produtividade e reduzir a abertura de novas áreas.

Com este sistema, em um mesmo talhão, são cultivadas espécies agrícolas e florestais e ocorre a produção pecuária, estruturadas em conjunto de forma ordenada. Existem também formas de integração que utilizam parte dos elementos produtivos: ILP (Lavoura-Pecuária), ILF (Lavoura-Floresta) e IPF (Pecuária-Floresta).

Os SAFs (Sistemas Agroflorestais), por sua vez, apresentam conceito semelhante ao ILPF, mas esta terminologia usualmente é associada ao cultivo orgânico. Por isso, o ILPF é mais abrangente e, como estratégia de produção, pode ser adotado em propriedades de qualquer tamanho (EMBRAPA, 2015).

Como estes sistemas têm sido adotados no Brasil?

O ILPF foi desenvolvido no Brasil há mais de 3 décadas pela Embrapa e tem alto potencial de utilização no país, principalmente em função do clima tropical e da possibilidade de expansão para áreas de pasto degradado.

Atualmente, aproximadamente 15 milhões de hectares produtivos são conduzidos em sistema de ILPF no país (IBGE, 2017) e os estados com maior representatividade são Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.

A adoção deste sistema se intensificou a partir de 2011, segundo dados da Rede ILPF (Embrapa), principalmente com incentivos associados à Agricultura de Baixo Carbono (ABC) a partir de 2009.

Com acordos mundiais para a redução das emissões de gás carbônico (CO2) e com demandas de compradores internacionais cada vez mais exigentes em relação à sustentabilidade das produções, o ILPF promove benefícios financeiros e ambientais que permitem alcançar estas duas metas.

Mas quais benefícios são esses? 

Com a adoção do cultivo integrado, uma série de benefícios produtivos, ambientais e econômicos podem ser percebidos pelos produtores:

  • Otimização e intensificação do uso do solo e da ciclagem de nutrientes;
  • Melhoria e conservação das características do solo;
  • Manutenção da biodiversidade e sustentabilidade da agropecuária;
  • Maior eficiência na utilização de recursos (água, luz, nutrientes e capital);
  • Melhoria do bem-estar animal em decorrência do maior conforto térmico;
  • Aumento da produção de grãos, carne, leite e produtos madeireiros e não madeireiros em uma mesma área;
  • Redução da sazonalidade no uso da mão-de-obra e na comercialização de produtos;
  • Aumento da renda líquida do produtor;
  • Estabilidade econômica em função da diversificação da produção.

 

 

E como eles acontecem na prática?

Para compreender como estes benefícios são alcançados, é necessário entender como o sistema funciona e como ocorre a sua implantação.

Geralmente, a implantação do ILPF realiza o plantio de linhas ou grupos de linhas de espécies florestais (renques) com espaçamentos largos (que variam entre 20 e 30m). Entre os renques, nos dois primeiros anos, há o plantio de culturas agrícolas anuais, como soja ou milho.

Após o segundo ano, espécies forrageiras podem ser plantadas em consórcio com as espécies agrícolas, e serão a base do pasto para a entrada do rebanho após a colheita das anuais. Na prática, não é recomendada a implantação da pastagem nos primeiros anos para evitar danos dos animais às mudas florestais.

Com este arranjo de cultivos, em um mesmo talhão, é possível realizar a condução de culturas agrícolas em safra e safrinha, a produção animal no período de entressafras e a produção florestal em médio e longo prazo.

Assim, neste sistema, o solo é explorado durante todo o ano, e as interações entre as espécies promovem aumento da biodiversidade do local (o que reduz a incidência de pragas), aumento da ciclagem de nutrientes (considerando principalmente a atuação do componente florestal), aumento de produtividade e do bem-estar animal.

Aumento de produtividade?

Sim! E, principalmente, de lucratividade.

Quando consideramos as culturas anuais, um estudo recente publicado pela Embrapa (Magalhães et al., 2019), mostrou que, em comparação ao cultivo solteiro (ou seja, monocultura), soja e milho apresentaram mesmo desempenho de produtividade até o 4º ano após a implantação do ILPF.

Houve queda de produtividade a partir do 5º ano de cultivo, momento em que o sombreamento provocado pelo componente florestal reduziu a entrada de luz e promoveu quedas de produtividade da ordem de 20%.

Mesmo com redução de produtividade, a produção foi mais rentável por hectare no ILPF, considerando a exploração de todos os produtos obtidos naquela área.

O mesmo sombreamento que reduz a produtividade de culturas anuais após o 5º ano, provoca resultados diretos no desempenho da produção animal: aumento da produção de leite em rebanhos leiteiros e aumento nos ganhos diários de peso de raças bovinas europeias (como Angus). Com maior conforto térmico, a pecuária é beneficiada.

E para as florestas?

O componente florestal, por sua vez, também tem a sua produtividade melhorada: com Eucalyptus urograndis, uma das espécies mais utilizadas no ILPF, o mesmo estudo mostrou que árvores no sistema integrado, plantadas em linhas triplas de renques distantes 30m, cresceram 18% mais do que árvores em monocultivo.

Com o manejo das árvores e retirada das linhas laterais, este efeito foi mais evidenciado: em dois anos, o ganho em volume da área de ILPF com linha simples foi 54% superior do que na área com monocultura e 25% maior do que na área com renques de linhas triplas.

Com o desbaste, além do aumento da produtividade florestal, todos os outros elementos do sistema foram beneficiados e a queda de produtividade da soja deixou de ser observada.

Além do Eucalipto, a Teca é uma espécie florestal que também tem ganhado destaque e atingido bons resultados: para esta espécie, há uma tendência de redução do tempo de corte. No ILPF, a expectativa é que o corte ocorra aos 18 anos, enquanto em sistemas de monocultivo este corte ocorre entre os 20 e 25 anos.

Todos estes benefícios para as espécies florestais podem ser justificados pelo aumento da radiação solar incidente nas árvores e redução da competição entre elas por água e nutrientes.

Além disso, o componente florestal é capaz de absorver as emissões de CO2 da pecuária, o que garante a sustentabilidade do sistema.

O fator econômico também é muito importante: considerando que os custos de implantação de uma área florestal são altos e o retorno é demorado, o sistema ILPF apresenta uma alternativa a esta situação. Com custos de implantação diluídos entre as culturas, o retorno econômico ocorre em diversos momentos: de curto, médio e longo prazo.

E o que é importante saber para implantar um ILPF?

O sistema descrito acima é um exemplo comum no Brasil, mas a definição do método a ser adotado em cada propriedade deve ser feito com acompanhamento técnico.

Isto porque, a definição das espécies a serem cultivadas (tanto agrícolas quanto florestais) depende das condições regionais do clima e do mercado em que a propriedade está inserida. Além disso, a espécie escolhida não pode causar sombreamento em excesso.

Muitas vezes, o consumo da madeira produzida no ILPF ocorre dentro da própria fazenda, na produção de mourões ou fornecimento de biomassa para caldeiras.

Neste caso, na implantação do sistema, a quantidade de árvores por renque costuma ser menor e o componente florestal é uma forma de “adição de renda”. Ou seja, não é o componente principal do sistema, mas aumenta a rentabilidade do talhão. 

Já quando a exploração da madeira é um dos principais focos do sistema, a quantidade de árvores por renque aumenta, assim como as intervenções realizadas para manutenção: capina, controle de formigas, adubação e outros.

Por isso, antes de pensar na implantação, é necessário entender qual será o foco do sistema: árvores, pecuária ou agricultura?

A partir desta definição, é importante escolher as espécies, o sistema de consórcio/rotação/sucessão e o espaçamento adequado ao maquinário que será utilizado.

Também é necessário observar que, em terrenos planos, as linhas de árvores devem ser plantadas no sentido Leste-Oeste, para garantir a máxima exposição à luz. Em terrenos com declividade acima de 3%, é recomendado que o plantio seja em nível, para reduzir problemas com erosão do solo.

Por fim, mas não menos importante, é necessário realizar o controle das operações e resultados desta área, para que você possa mensurar os benefícios que o ILPF proporciona e saber os momentos de intervir!

A gestão dos dados de áreas produtivas, unindo dados ambientais, produtivos e financeiros, é uma ação estratégica para o sucesso do investimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EMBRAPA. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. 2016. Rede de Fomento iLPF. iLPF em Números. 2016.

EMBRAPA. Integração lavoura-pecuária-floresta: o produtor pergunta, a Embrapa responde / Luiz Adriano Maia Cordeiro et al. (editores técnicos). Brasília, DF : 2015. 393 p. : il. (Coleção 500 Perguntas, 500 Respostas)

MAGALHÃES, C.A.S., PEDREIRA, B.C., TONINI, H. et al. Crop, livestock and forestry performance assessment under different production systems in the north of Mato Grosso, Brazil. Agroforest Syst 932085–2096 (2019). https://doi.org/10.1007/s10457-018-0311-x

 

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